Carta de Amor

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só

Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos tupis
Sou Tupinambá, tenho os erês, caboclo boiadeiro
Mãos de cura, morubichabas, cocares
Zarabatanas, curares, flechas e altares

A velocidade da luz, o escuro da mata escura
O breu, o silêncio, a espera
Eu tenho Jesus, Maria e José
Todos os pajés em minha companhia
O menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos
O poeta me contou

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, eu não ando só

Não misturo, não me dobro
A rainha do mar anda de mãos dadas comigo
Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim
É do ouro de Oxum que é feita a armadura que cobre meu corpo
Garante meu sangue, minha garganta
O veneno do mal não acha passagem
E em meu coração, Maria acende sua luz e me aponta o caminho

Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã
Giro o mundo, viro, reviro
Tô no recôncavo, tô em fez
Voo entre as estrelas, brinco de ser uma
Traço o cruzeiro do sul com a tocha da fogueira de João menino
Rezo com as três Marias, vou além
Me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas
Durmo na forja de Ogum, mergulho no calor da lava dos vulcões
Corpo vivo de Xangô

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Medo não me alcança
No deserto me acho, faço cobra morder o rabo, escorpião virar pirilampo
Meus pés recebem bálsamos, unguentos suaves das mãos de Maria
Irmã de Marta e Lázaro, no oásis de Bethânia
Pensou que eu ando só? Atente ao tempo!
Não começa, nem termina, é nunca, é sempre
É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra
Fulmina o injusto, deixa nua a justiça

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Onde vai, valente?
Você secou, seus olhos insones secaram
Não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira
Seus ouvidos se fecharam a qualquer música, a qualquer som
Nem o bem, nem o mal pensam em ti, ninguém te escolhe

Você pisa na terra, mas não a sente, apenas pisa
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

Eu posso engolir você, só pra cuspir depois
Minha fome é matéria que você não alcança
Desde o leite do peito de minha mãe
Até o sem fim dos versos, versos, versos
Que brotam do poeta em toda poesia
Sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi

Se choro, quando choro, e minha lágrima cai
É pra regar o capim que alimenta a vida
Chorando eu refaço as nascentes que você secou
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio
Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi cruzam o meu peito
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só

Carta de Amor – Maria Bethânia

 

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Tudo bem mesmo não estar tudo bem?

A gente se cobra e é cobrado o tempo todo para estar bem. Você tem que estar bem, sorrir, ser simpático, estar bem arrumado, animado. Mas como fica quando não está tudo bem? Quando nossas emoções estão confusas ou machucadas, quando estamos tristes, decepcionados, frustrados, em luto?

Desde muito cedo eu aprendi que temos nossas obrigações a cumprir independente do nosso estado emocional e as vezes até físico. Nunca soube o que era uma indisposição até chegar a vida adulta e ouvir essa justificativa por outras pessoas.

Mas por vezes é muito difícil seguir. O fato de estar ocupando seu lugar no mundo, cumprindo honestamente com seus afazeres muitas vezes dá a ideia que temos que estar bem e prontos. E muitas vezes não estamos de fato.

No mundo de relações rasas, quem mergulha fundo pode morrer afogado. A incompreensão assola a humanidade e a gente vai perdendo a capacidade de se colocar no lugar do outro. Hoje precisamos de palavras específicas para tentar resgatar características que nos tornaram humanos: empatia, resiliência, proatividade, sustentabilidade, empoderamento… e a minha favorita HUMANIZAÇÃO. Humanos precisando de conceitos para resgatar a humanização que outrora foi inata.

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E a gente precisa se explicar o tempo todo, se não estamos sorrindo, que estamos com dor, ou preocupados e até mesmo tristes. E olha que mesmo explicando, muitas vezes não somos compreendidos. Outra palavra legal que precisa ser trabalhada o tempo todo: compreensão.

A evolução do mundo é linda, mas a gente precisa ter cuidado mesmo é com a nossa humanidade, sem ela de nada vale todo o resto.

Cacto em flor – devaneios de uma mente inquieta

Eu sempre tive um desejo secreto de começar um blog, mas sempre achava besteira. Blog do que? Não tenho nada interessante pra falar.

Mas nos últimos tempos a necessidade de escrever vem aumentando. E esse sempre foi meu método favorito de aliviar o coração e a mente, mas com o tempo e a correria da vida adulta (na adolescência eu escrevia horrores) o hábito foi se perdendo.

Então cá estamos. A tela e eu. Sem cadernos ou diários dessa vez. Cá escrevo para mim mesma, numa tentativa de aliviar a cabeça das mil ideias, dores e dúvidas que a povoam.

Talvez muitas coisas nem façam sentido quando forem lidas, mas o sentido das coisas quem dá é a gente mesmo.

Que as palavras possam fluir por aqui, sem medo, sem peso, sem pudores. Que voem os devaneios e o que mais me der vontade. E que elas me ajudem a encontrar de novo a leveza que me escapou pelas mãos diante dos desafios da vida.

É tão difícil não se deixar enrijecer diante das perdas e dores, partidas e despedidas… Vida que segue é bordão fácil de se falar, mas difícil de se viver na prática.

Hino da saudade

O Mar serenou
Fonte: Pinterest